RIE 17 NOVEMBRO 2016

 

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Sumário / Summary

O Autocuidado e a Pessoa com DPOC: um trabalho de projeto em reabilitação respiratória
The Self- Care and the Person with COPD: Project Methodology on Respiratory Reahabilitation
El cuidado de sí mismo y la persona con EPOC: un proyecto para trabajar en la rehabilitación respiratoria
José Pinto; Salete Soares; Clara Araújo

Adesão à Terapêutica Oral em Oncologia
Oncology Adherence to Oral Medication
Adhesión a la Terapéutica Oral en Oncologia
Cláudia Furtado; Sónia Caixeirinho

Evolução funcional da pessoa numa Unidade de Cuidados Continuados Integrados de Média Duração e Reabilitação
The functional evolution of the patient admitted in Unidades de Média Duração e Reabilitação
La evolución funcional de la persona hospitalizada en la Unidad de Duración media y Rehabilitación
Patrícia Alexandra Rodrigues Ferrerira; Maria Clara Amado Apóstolo Ventura

O Impacto da psoríase no autoconceito e na socialização da pessoa: uma Revisão Integrativa da Literatura
The impact of Psoriasis on self- concept and socialization: An Integrative Review of the Literature
El impacto Psoriasis en uno autoconcepto y en uno de socialización: Una revisión integradora de la literatura
Carolina Moreira Pico; Mariana Rodrigues Pauleta De Matos; Raquel Alexandra da Silva Caridade; Tânia Isabel Ferreira Lucas;
Rosa Cristina Correia Lopes

EDITORIAL

Desenvolvimento Humano, Tempo e Habitus

O desenvolvimento humano é talvez à grande escala, o mais desafiante tema para discutir em enfermagem. Ora! Discutir desenvolvimento importa definir um princípio, e aí é fácil, vamos ao encontro de Lucy, quando há 3,2 milhões de anos em terras de AFAR – Etiópia, se iniciava a existência humana. Lucy tinha 1,1 m de altura, pesava 29kg e caminhava ereta em bipedismo. O seu cérebro pesava 350 g. A existência de Lucy, tal como a nossa, é contínua, não nos deixando a opção de existir por intervalos, quer dizer aos poucos. Pois se assim fosse, pessoalmente agradava-me a ideia de, para além de a ter conhecido, viver o restante começando no seculo I, 2 anos por século, e ainda me sobrariam alguns anos para conhecer os 10 ou 20 séculos que se seguem. Numa existência ficcionada descontínua, iria com certeza encontrar respostas para dúvidas sobre a Humanidade. O nosso cérebro é cerca de 4 a 5 vezes maior que o de Lucy, será que esse desenvolvimento se deu nos humanos num mesmo ritmo? Esse desenvolvimento já terminou? Essa diferença faz de nós melhores humanos? Se essa diferença aumentar que futuro resta à existência humana?
Sei que estou a ignorar os 100 milhões de neurónios e as 10x mais células da glia que os colam entre si numa rede de tamanho indeterminado. Mas não estou a ignorar a relevância do habitus, (termo utilizado e desenvolvido por Bourdieu), aquele que nos impregna, nos vacina na nossa biologia, a matéria social, cultural que tocamos, que ouvimos ou que respiramos e que nos torna diferentes, uns de outros. Neste propósito, em 1966 como medida para aumentar o número de trabalhadores operários, Nicolae Ceausesco, na Roménia, baniu a contraceção e o aborto. Na verdade, o número de crianças aumentou de tal forma que as famílias muito pobres não conseguiam suportar a sua “sobrevivência” e cerca de 170.000 crianças foram abandonadas ou enviadas para orfanatos. Hoje conhecem-se bem e cientificamente as repercussões e danos cerebrais severos resultantes da ausência de ambiente afetivo, emocional e social que esta realidade trouxe a estas crianças.
Ainda assim, sabendo que se nasce com praticamente todas as células – neurónios, expeto cerebelo e hipocampo - central de memórias, já temos uma janela neurogénica de oportunidades para um desenvolvimento mais consciente de uma prática multissensorial em enfermagem. Um cuidado que expanda o pensamento, que ajude a criar, e que leve a pessoa a gerar significados, na sua autobiografia, no seu ritmo, no seu Tempo. É certo, que aos 2 anos de idade acumulamos o maior número de sinapses de toda a nossa existência, e que estas se reduzem a metade na idade adulta, mas isso não nos torna “acabados” sinapticamente falando. Recordemos o estudo realizado por neurocientistas da University College London, aos motoristas de táxi da cidade, onde entre o início da sua atividade e alguns anos após, se evidenciaram diferenças estruturais ao nível do hipocampo, sendo este de maior dimensão ao nível posterior. Sugerindo ser devido a uma maior frequência do uso da memória visual e espacial.
Voltando ao Tempo, não me refiro ao Tempo Greenwich que por convenção determina que um dia tem 24h. Não me refiro ao Tempo do Universo, onde há 13 bilhões de anos e tem sido resistente e espantosamente imune a qualquer investida do ser humano, nele o Tempo segue independentemente da nossa vontade, independente de qualquer convenção. Não me refiro aos quatro mil milhões de anos que tem a vida deste planeta. Até porque nos 4 mil milhões de histórias da família humana, não há conhecimento de alguma vez, no universo, o Tempo ter estremecido e muito menos parado. O Tempo não tem medo e segue o seu caminho. E se com alguma lucidez quisermos mesmo admitir ainda que a espécie humana perdure pelo universo outro tanto Tempo, a verdade é que na grandeza da existência do Universo essa existência será desconsiderada ou mesmo banida de relevância, sendo que o Tempo seguirá o seu caminho. Na nossa vida, em regra levamos mais tempo a nascer que a morrer (face à sempre ultima causa de morte – paragem cardiorrespiratória) quando nascemos não é às 15h e tal, é por exemplo às 15h43m, quando morremos a precisão é menor (salvo por razoes judiciais) – morreu à tarde ou morreu de manha…já não vai ser muita a diferença pois o Tempo ai parou…
Em 24 horas o nosso Tempo é organizado de forma a não haver muitos desperdícios. Trabalhamos, estudamos, convivemos, comemos, dormimos, lemos, pensamos, comtemplamos o céu ou mesmo não fazemos nada numa dimensão social e em determinado Tempo. Esta dimensão social está particularmente revelada no desenvolvimento do cérebro do adolescente. Potencialmente rico em contactos sociais, dá-se um novo incremento sináptico e ainda o seu fortalecimento das suas conexões. Leah Somerville adianta que córtex pré-frontal medial, importante no controlo dos impulsos, vai-se maturando e surgem alterações cognitivas necessárias ao desenvolvimento cerebral. (Daí também a maior sensibilidade da justiça quando se trata de crime juvenil, ou não). Mas, independentemente da sua arrogância o Tempo uma vez usado, não permite reciclagem. Portanto por vezes o Tempo não nos ajuda muito.
Também, os enfermeiros conhecem bem a pressão do Tempo. O nosso pp código deontológico assume relevância ao Tempo, quando no seu artigo 83º … fala em Tempo útil. Onde o enfermeiro, no respeito do direito ao cuidado na saúde ou doença, assume o dever de: “Coresponsabilizar-se pelo atendimento do indivíduo em Tempo útil, de forma a não haver atrasos no diagnóstico da doença e respetivo tratamento; quando tal opção seja viável e não ponha em risco a sua saúde”
Temos que admitir que este consumo de Tempo útil ou inútil depende em muito, de nós mesmos, e deixa dicas para introspeção, pois mais uma vez, o presente, o aqui e agora não é mesmo tudo o que temos. Mas, o todo-poderoso Tempo também está no passado. Não vou lembrar a caminhada do homem da Era da agricultura do séc. XVIII até há de hoje, (a Era conceptual a era dos criadores dos empatizadores). Um dia um doente terminal pediu um pouco de Tempo ao enfermeiro, este sentou se à sua beira e escutou-o, o doente tomando pouco Tempo ao enfermeiro lembrou-o “que ele… agora doente, não era só aquilo que ele enfermeiro ali via…”
Qual o habitus? Hoje mesmo quantos cuidados de enfermagem foram prestados com identidade, com passado? “Otimizar” sem a evidência do habitus, respeitar sem olhar para trás no seu Tempo, é desperdiçar o nosso Tempo e o de outros.

Vanda Lopes da Costa Marques Pinto
Concelho Editorial da RIE