RIE 18 FEVEREIRO 2017

 

DOWNLOAD INTEGRAL DA REVISTA

Estudo de validação do instrumento de qualidade de vida no trabalho dos enfermeiros (iqvte)
validation study of quality of life instrument at nursing worK
Estudio de validación del instrumento de la calidad de vida en el trabajo de los enfermeros
Ana Lúcia João; Catarina Pereira Alves; Cristina Silva; Fátima Diogo; Nadine Duque Ferreira

Questionário sobre a Preservação de Vestígios na Assistência à Vítima por Enfermeiros (QPVAVE) do Serviço de Urgência e/ou Emergência
Evidence preservation by ER Nurses in victims of trauma questionnaire
Cuestionario sobre la preservación de vestigios en asistencia a las víctimas por enfermeros de Urgencia y / o de emergencia
Cristiana Isabel de Almeida Gomes;  Francisco Corte-Real; Manuel Chaves

Evolução e destino das pessoas dependentes no autocuidado: estudo longitudinal
Evolution and destination of people dependent in self-care: a longitudinal study
La evolución y el destino de las personas dependientes en el autocuidado: un estudio longitudinal
Fernando Alberto Soares Petronilho;  Filipe Miguel Soares Pereira; Abel Avelino de Paiva e Silva

Aplicação do Modelo de Avaliação Calgary em Famílias com Idosos: Contextos Crenças e Valores
Application of Calgary Evaluation Model for Families with Elderly: Contexts Beliefs and Values
Aplicación del Modelo de Evaluación de Calgary para familias con ancianos: Contextos creencias y valores
Isabel Maria Batista de Araújo;  Maria Clara Oliveira Simões; Joaquim Filipe Ferreira Azevedo Fernandes

Documentação dos Cuidados de Enfermagem em Contexto de Urgência
Documentation of nursing care in emergency context
Documentación de los cuidados de enfermería en contextro de emergencia
Teresa Maria Cerqueira Alves;  Maria Aurora Gonçalves Pereira; Mara do Carmo de Jesus Rocha

 

EDITORIAL

Enfermagem de Prática Avançada. Ir ao cerne da questão
Está disponível um conjunto de designações que não dizendo a mesma coisa, convocam para a sua clarificação, a discussão sobre a essência da enfermagem e a natureza do seu saber. Refiro-me aos conceitos de enfermagem avançada, enfermagem de prática avançada, prática avançada, especialista em enfermagem, perito.
Comecemos por considerar algumas situações clínicas concretas.
Um enfermeiro trabalha numa unidade de cuidados intensivos rodeado de alta tecnologia, ventiladores, monitores para as mais diversas funções, desfibrilhadores, bombas infusoras de alimentação e de terapêutica medicamentosa, dialisadores,... Para lidar com todo este material e poder prestar cuidados de alta qualidade aos seus utentes críticos, necessitou de um grande período de integração e de desenvolvimento de competências, bem como o aprofundamento pelo estudo de aspectos teóricos e práticos específicos.
Uma enfermeira foi chamada a fazer noites em casa de uns utentes que têm um familiar, idoso, em estado avançado de Alzheimer. Este apresenta a natural desorientação e confusão inerente ao quadro clínico, acrescido de agressividade, elevada dificuldade relacional, dependência para a totalidade das actividades da vida diária. Colocando-se problemas de segurança do próprio doente, dos familiares e dos cuidadores profissionais. A enfermeira teve conhecimento de uma metodologia de cuidados – sistematização de cuidados designada por "humanitude", valorizando de forma particular o olhar, a palavra, o toque e a verticalidade, da qual lhe informaram ter particular sucesso na abordagem destes doentes. Frequentou um curso, iniciou as abordagens adquiridas e começou a ter sucesso terapêutico com o seu doente.
Poderíamos colocar outros exemplos. Estes espelham situações e contextos de cuidados nossos conhecidos. Em ambas encontramos saberes diferenciados pela sua complexidade, pela responsabilidade acrescida que acarretam, pela necessidade que tiveram de aquisição de saberes e de desenvolvimento de novas competência. Serão estes enfermeiros, enfermeiros de prática avançada? Parece que sim, mas... vejamos.
O ICN (International Council of Nurses) define enfermeiro de prática avançada como: «uma/o enfermeira/o que adquiriu uma base de conhecimentos especializados, habilidades complexas na tomada de decisão e competências clínicas para a prática expandida, cujas características são moldadas pelo contexto e/ou país em que ele/ela é credenciado para a prática. O mestrado é recomendado para o nível de entrada»" (ICN, 2009).
Esta definição esclarece alguma coisa, refere conhecimentos especializados, habilidades complexas na tomada de decisão e competências clínicas. Não clarifica o que é uma prática expandida remetendo para os contextos nacionais. Subentende-se que expandido será para além do que já faria, mas em que direção?
No entanto, não resolve a questão de fundo, que se relaciona com a visão dicotómica que permanece na enfermagem: uma perspectiva mais biomédica ou uma abordagem mais humanista. Esta questão é essencial. Só sabendo o que é a enfermagem, a natureza do seu saber e como se cria o seu conhecimento, se poderá saber o que constitui uma prática avançada, importa esta clarificação.
Poderemos ter uma enfermagem de prática avançada biomédica e nesse sentido dificilmente estaremos a falar de uma enfermagem disciplinarmente (cientificamente) assumida, com campo de ação próprio e autonomia na sua prática profissional. Ou poderemos ainda ter uma enfermagem de prática avançada, com o avanço a verificar-se naquilo que seja as suas intervenções autónomas, relacionadas com o campo disciplinar, de saberes próprios e de ação específica. A dicotomia pode simplificar-se na afirmação de se optar por "mais medicina na enfermagem ou mais enfermagem na enfermagem". Discussão que nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, entre outros, se faz em torno dos conceitos de "nurse practitioner´s" e de "clinical nurse specialist".
Os organismos internacionais estão atentos, e se o conceito de enfermagem de prática avançada (EPA) esteve originalmente muito focalizado na enfermagem de alta tecnologia, de enfermagem hospitalar, hoje o campo é alargado. É assim que em 2016, no: "Centro Colaborador da OPAS/OMS na University of Michigan School of Nursing, com mais de 50 participantes de Estados Unidos, México, Canadá, Brasil, Chile e Colômbia. Os líderes se encontraram com o objectivo de examinarem as competências essenciais para o papel da EPA na atenção primária de saúde ..." (Cassiani; Rosales, 2016)
Ajudará a esta clarificação o que se entende por perito. No âmbito da enfermagem a abordagem de perito tipificada por Benner (2001) é colocada nos seguintes termos: "... As enfermeiras peritas sabem que em todos os casos, uma avaliação definitiva do estado do doente não pode ser satisfeita por pressentimentos vagos, mas aprenderam com a experiência a deixar as suas percepções guiá-las à evidência confirmatória" (p. 22). Onde "... a consciência perceptiva é o elemento central de um bom raciocínio de enfermagem, e por isso começa por breves intuições e avaliações globais, que escapam no início, à análise crítica..." (p. 22). Assim, " ... a experiência é por isso necessária para a perícia" (p.32). Sendo que "a enfermeira perita apercebe-se da situação como um todo, utiliza como paradigma de base situações concretas que ela já viveu e vai directamente ao centro do problema sem ter em conta um grande número de considerações inúteis (Dreyfus, H. 1979; Dreyfus, S. 1981)" (p. 33). E ainda que "... ela age a partir de uma compreensão profunda da situação global" (p. 58).
Nós próprios, em investigação de 2015, concluíamos: "Em síntese, caracterizamos os enfermeiros peritos como enfermeiros que têm conhecimentos aprofundados, alargados e adquiriram metacompetências. Diferenciam-se pela capacidade de liderança, de supervisão, de gerir mudança e pelas competências comunicacionais acrescidas. Apresentam capacidade de agir reflexivamente, planear, sistematizar, avaliar consistentemente e têm mais destreza. Maior capacidade de adaptação, segurança e conseguem uma visão mais global. São competentes na gestão de conflitos, em lidar com o stresse, bem como articulam a teoria e a prática, criam conhecimento, utilizam a investigação, respondem a situações complexas, tem capacidade de decidir. Apresentam capacidade de antecipação, perspicácia, fazem uso da observação discriminada, rapidez na ação e competência na definição de prioridades. Comportam uma visão do contexto e tende à especialização. Assim sendo, o saber dos enfermeiros peritos é um saber diferenciado, construído e só possível pela experiência profissional, pela ação ou seja pela clínica de enfermagem." (Queirós, 2015).
Acreditamos que a aproximação ao conceito de perito ajuda a situar a enfermagem de prática avançada num contexto disciplinar correspondendo a "mais enfermagem na enfermagem". Neste paradigma, as competências clínicas de suporte a uma prática expandida traduzem-se no aprofundamento relacional, no entendimento que cuidar (com desvelo, compaixão e solicitude) vai para além de prestar cuidados (mero fazer técnico), comporta uma atitude também ela aprendida, treinada, investigável e validável, assim passível de se sintetizar em evidência científica de enfermagem. Sem desvalorizar o desenvolvimento e alargamento de competências técnicas instrumentais, o enfermeiro de prática avançada consegue uma prática expandida relacional e cuidativa, atuando com elevado desempenho no âmbito de um cuidar integral de enfermagem.

Paulo Joaquim Pina Queirós. Conselho Científico, RIE